segunda-feira, 4 de julho de 2011


O caminhar ligeiramente trôpego não impedia que se percebesse a elegância do porte e das roupas, cabelo impecável, o anel com sinete se destacava na mão que segurava a bengala. Dirigiu-se às cadeiras espreguiçadeiras alinhadas no terraço e sentou ao lado do único outro ocupante.
Essa atitude me fez imaginar que procurasse companhia ou, pelo menos, estaria em busca de alguns minutos de prosa. Provavelmente hospedara-se sozinho no hotel. Eu não conseguia enxergar se o ocupante da outra cadeira era homem ou mulher. Via apenas a copa de um chapéu. Talvez fosse a esposa.
Há dias sem conversar com ninguém, eu, que já começara a amaldiçoar esta viagem solitária, também andava à cata de companhia e, curiosa, desloquei-me até lá. Debrucei na mureta como se procurasse alguém na praia e, disfarçadamente, espiei o ocupante da outra cadeira: outro idoso, muito bem vestido e alinhado, como o recém-chegado. Sorri. Percebi não estar sendo observada e senti-me à vontade para permanecer ali.
O que já estava sentado iniciou a conversa.
- Vem sempre aqui?
- É a primeira vez, recomendaram-me com tanta ênfase que resolvi experimentar. Também o senhor?
- Coincidentemente, sim.
Pela pompa no linguajar e na pronúncia pareceram-me cultos. Que teriam sido? Hoje, evidentemente, aposentados, pois que já passavam dos oitenta anos. Deputados? Senadores? Advogados? Presidentes de grandes empresas?
- Apraz-lhe o litoral?
- Na meia estação... na meia estação exclusivamente. Temperaturas extremas incomodam-me. Prefiro enfrentá-las em casa.
- “Home, sweet home”? Sorriram em concordância.
Absortos em seus pensamentos, eu poderia observá-los sem pudor. Sentei-me também numa das espreguiçadeiras, fingindo ler. Ficaram em silêncio.
- Caminhamos? – sugeriu um deles.
- Será agradável – concordou o outro e eu, não podendo perdê-los, levantei-me antes que se erguessem. Caminharia também.
CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA

domingo, 3 de julho de 2011

Sobre ser Augusteum

"...Olho para o Augusteum e penso que, no final das contas, talvez a minha vida na verdade não tenha sido tão caótica assim. É apenas este mundo que é caótico e nos traz mudanças que ninguém poderia ter previsto. O Augusteum me alerta para eu não me apegar a nenhuma ideia inútil sobre quem sou, o que represento, a quem pertenço ou que função eu poderia ter sido criada para exercer. Sim, eu ontem posso ter sido um glorioso monumento a alguém - mas amanhã posso virar um depósito de fogos de artifício. Até mesmo na cidade Eterna, diz o silencioso Augusteum, é preciso estar preparado para tumultuosas e intermináveis ondas de transformação..."
"Comer, Rezar, Amar", de Elizabeth Gilbert


Pegando a deixa da Rosa Bertoldi realmente acredito que todos deveriam em algum momento ler "Comer, Rezar, Amar", de Elizabeth Gilbert e nao so a mulherada pois a historia de vida e mudanca de Elizabeth eh incrivel e inspiradora.
Ah, sim, caros, estou em um note sem nenhum acento entao, esse, alem de um texto pouco coerente ha de ser gramaticamente incorreto.
Tem gente nessa vida que faz diferenca no andandamento do universo so por existir. Uma vez a Denise Stoklos disse que teve uma amiga atriz (incrivel de talentosa) que largou tudo para virar monja la no Tibet e que todos os dias ela tinha certeza de que o mundo nao havia perdido uma grande atriz mas sim que sua presenca como monja havia sim impedido muitas guerras pelo mundo.
E eh mais ou menos isso que o livro me passa, que devemos acima de tudo sermos positivos e honestos com AS NOSSAS PROPRIAS ESCOLHAS pq afina, sao nossa escolhas e elas podem ser revistas a qualquer momento, caso elas nao nos satisfacam.
Ha algum tempo decidi que nao mais reclamaria da vida pois afinal nao tenho do que reclamar, e que se tivesse, viraria a pagina e seguiria em direcao ao horizonte como naqueles filmes de cowboy. Ao fim da tarde. Mas sempre sendo honesta comigo mesma e feliz. Vamos combinar que ate que se prove o contrario esta eh nossa unica oportunidade nessa Terra, com esses lugares lindos e gente bacana.
Esquece do Sarney, dos corruptos, dos invejosos, dos maldosos... e so foca no que ha de bacana. Gente, juro que nao fumei maconha, eh que a real eh que busco a cada dia ser feliz e fazer dentro do possivel o melhor possivel porque so assim o Universo anda dentro do seu curso, a vida acontece naturzalmente sem murro em ponta de faca. Ai desculpa a enrolacao. Tudo deve estar meio sem sentido e nao so pela falta de acentuacao.
Semana que vem conto da viagem. Bjs e boa semana a todos.

sábado, 2 de julho de 2011

Comer e rezar...

Comer e rezar...
Primeiro foi o filme: Comer, rezar, amar. Em seguida comecei a ler o livro. Liz Gilbert é divertida, corajosa e inteligente. Bom, se não fosse não teria vendido mais de quatro milhões de cópias de sua obra traduzida para mais de trinta idiomas. Ela relata sua aventura - deveria dizer fuga? - após um divorcio traumático por três países completamente diferentes culturalmente falando. Itália/comer é sua primeira parada. Queria aprender uma língua diferente e na concepção dela o italiano de Dante tinha sua preferência. De maneira irreverente vai contando e quem conhece Roma acompanha com facilidade suas andanças e tropeços, seus novos amigos, suas viagens, sua gula. Descreve o ato de comer uma simples pizza como algo sagrado. Deve ter se alimentado muito bem, pois deixou o país com 15 quilos a mais. Ainda bem que foi aportar na Índia, mais precisamente em um ashram, um mosteiro, em busca de devoção. Praticante de ioga e tendo um guru, Liz queria uma experiência mística. Faz novos amigos e trabalha lavando todos os dias o chão do templo, onde medita por horas e horas preparando-se para perdoar a si mesma por seus pecados e estender esse perdão a todos que direta ou indiretamente feriram seu coração. Mesmo assim, não perde seu bom humor. Ler seu texto é como espiar o diário de alguém. Às vezes rindo, outras chorando, ela embarcou e chegou ao porto seguro que buscava. Magra de novo, após passar quatro meses ao redor de uma mesa vegetariana desembarcou na Indonésia, mas precisamente em Bali, na pequena cidade Ubud, onde Liz havia conhecido um xamã. Ele havia lido sua mão e previsto todos os acontecimentos relacionados à sua vida, concluindo que ela voltaria de novo àquela região. Voltou! E lá praticamente refeita de todas suas tristezas encontra-se com ele e acaba conhecendo outros moradores locais e alguns estrangeiros, dentre eles, Felipe, um brasileiro que é hoje seu marido. Suas memórias são uma lição de vida. Saí da leitura um pouco mais leve, mais tolerante, mais amável, mais convicta de que o Deus dos seres humanos é o mesmo em qualquer idioma e está dentro de nós. As lições contidas no livro são universais.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Juan Gelman


Não o conhecia até sábado. Quero apresentá-lo a vocês e ao mesmo tempo pedir desculpas (de repente só eu não o conhecia).... é poeta, jornalista e tradutor argentino, ganhador do Prêmio Cervantes em 2007

hoje chove muito, muito
e parece que estão lavando o mundo.
não tenho vizinho do lado esquerdo,
ele gostava de contemplar a chuva,
e pensava em escrever uma carta de amor,
uma carta à mulher que vivia com ele
e cozinhava para ele e lavava a roupa para ele e fazia amor com ele
e parecia sua sombra
mas, meu vizinho nunca dizia palavras de amor à mulher
entrava em casa pela garagem e não pela porta,
por uma porta se entra em muitos lugares
no trabalho, no quartel, no cárcere,
em todos os edifícios do mundo
mas não no mundo
nem numa mulher, nem na alma
quer dizer, nessa caixa ou nave ou chuva que chamamos assim
como hoje, que chove muito
e me custa escrever a palavra amor
porque o amor é uma coisa e a palavra amor é outra coisa,
e somente a alma sabe onde os dois se encontram
e quando e como
mas, o que pode a alma explicar?
por isso meu vizinho tinha tormentos na boca
palavras que naufragavam
palavras que não sabiam que havia sol porque nasciam e
morriam na mesm noite em que amou
e deixava cartas no pensamento que ele nunca escreverá
como o silêncio que há entre duas rosas
ou como uma rosa e eu, que escrevo palavras para voltar
ao meu vizinho que contemplava a chuva
à chuva
ao meu coração desterrado.

domingo, 26 de junho de 2011

ABOUT A GIRL...

Dia de limpeza. Horas arrumando o armário do banheiro. Deus meu, como tenho potinhos! Creme anti celulite, spray anti celulite, creme pós depilatório, creme que vira óleo, óleo que é óleo mesmo, creme para a volta dos olhos, gosma azul para o cabelo, creme gel que é perfume, mousse hidratante para o corpo que também funciona como perfume, vários perfumes (adoro perfumes!), gloss para cabelo, graxa para cabelo, polisher para cabelo (a diferença existe!), mousse para cabelo, spray para dar brilho, spray fixador, repelente de insetos, loção pós sol, protetores solares de fatores variados, protetor solar para cabelo, protetor em gel para o rosto, hidratante com óleo de amêndoa, hidratante de macadamia, ácido retinóico para o rosto, demaquilante trifásico detox (por que?), demaquilante em creme, creme clareador de manchas... e depois os homens perguntam por que as mulheres são loucas?

sábado, 25 de junho de 2011

Nefertiti ou Van Gogh?


Pensei em começar pelos girassóis de Van Gogh. Mas vou direto ao assunto, pescoço. Não do livro Meu pescoço é um horror, sugerido por alguém numa conversa brincalhona quando reclamei do meu chegando perto do umbigo. Comentei na hora que pescoço bonito era o da Nefertiti, mulher incrivelmente conservada para seus 3.500 anos. Minha amiga respondeu: ela deve ter sofrido um bocado, pois na época costumavam colocar uma cinta justa no local para as moças terem aqueles pescoços longos. Meu marido acrescentou que era para não precisarem de cirurgia plástica. Plástica, palavra grega de significado moldabilidade da forma, talvez fosse uma solução. Naquela noite sonhei com a Marta. Desisti da ideia, embora o pensamento estivesse latente em mim. Dias depois sonhei com Marisa. Credo uma semana de pesadelos com Michael Jackson, desisto.
Caetano cantarolando que Narciso acha feio o que não é espelho. Pensei:corajosa ou covarde? Afinal, você é uma mulher ou uma barata? Marquei a consulta e deparei-me com o mais jovem, e simpático cirurgião da paróquia, João Gabriele. Dentro da minha brutal sinceridade disse: nada me incomoda, boca, nariz, olhos grandes, só o pescoço. A resposta foi simples, deixa comigo. De repente, estava fazendo uma via sacra por diferentes especialistas até obter todos os exames e a ansiedade levando minha pressão a mil. Na hora marcada lembro-me de ter ido para a sala de cirurgia e só. No dia seguinte uma enfermeira mostrou-me o espelho. Teria ela um pacto com Narciso? Olhei horrorizada: Nefertiti ou Van Gogh? Estava embrulhada como se minhas orelhas tivessem sido cortadas. Logo depois chegou o doutor dando-me alta e dizendo que eu estava ótima! Nunca mais vou tirar o lenço nem os óculos de sol. Giuseppe, o avô vai perdoar ,pela adoção do islamismo, assim ninguém poderá ver meu rosto. A irmã prestativa cuidando de mim e perguntando se queria dar uma olhadinha. Não! Dois dias depois ao sair do banho criei coragem e olhei. Gases prendiam tudo e não via nem meus olhos. A burca é a solução, mesmo.
Minha mãe me achava esquisita e minha filha acredita piamente que sou maluca. Pertenço à geração beat. Arroz integral, florais de Bach, homeopatia, hormônios, farmacopéia alternativa fazem parte do meu dia a dia, além da filosofia oriental. Certa vez fiz um tratamento com ventosas. Voltei para casa como se tivesse passado uma temporada com o reverendo Moon. Teriam elas razão? Quarto dia: eu no consultório tirando pontos em frente ao espelho. Surpresa, vejo um rosto levemente inchado, sem nenhuma mancha roxa, boca, nariz, olhos arregalados como se nada tivesse acontecido. O pescoço? Está melhor que o da Nefertiti!

quarta-feira, 22 de junho de 2011