domingo, 16 de março de 2014

Sarah Thornton: visita ao ateliê...

As minhas observações de hoje continuam um assunto iniciado semana passada. Gostaria de deixar claro: 1) tenho o maior respeito pela arte contemporânea, 2) principalmente, pelos artistas que conseguem ganhar milhões com seu trabalho sem fazer força. Como vocês sabem estou lendo Sete dias no mundo da arte.  Isso não vai me transformar em especialista da área, mesmo assim vou comparar a opinião de um editor respeitado como o da Artforum e meu humilde ponto de vista, pois ele tem razão quando diz que muitos artistas não podem ser levados a sério na atualidade.
Estou me divertindo ao acompanhar a visita de Sarah ao ateliê de Murakami. Não, não é o autor do best seller 1Q84. Nesse caso, trata-se de um discípulo de Andy Warhol, afirmação dele, não minha. Takashi Murakami e seus 90 empregados entre Saitama, Tóquio e New York são os autores do Oval Buddha com seus cinco metros e meio de altura. Ufa, um horror! Fiquei de boca aberta ao ver a obra e de queixo caído ao saber que em Tóquio os taxis são pretos com bancos rendados. O motorista usa luvas brancas e máscara cirúrgica. Não perguntem: porque??? A autora não diz e nem sei como cheguei aqui. Como não gosto de comida japonesa e não sou do meio artístico a minha resposta é nada a declarar... Ainda mato o Baptista com sua mania de querer me transformar em intelectual. Sou hippie e jogo tênis. Esquisito? Esquisito seria dizer sou hippie e não fumo maconha! Murakami deve ser um fenômeno de mídia. Posso garantir: o homem não cursou Belas Artes (não coloca um dedinho nos trabalhos) ele é publicitário e cuida muito bem da própria carreira.  Criou um monograma para Louis Vuitton cheio de flores coloridas usando 33 cores e a coisa pegou. Como a empresa pagou um bom dinheiro, ele decidiu aumentar sua fortuna se apropriando do próprio desenho e colocando tudo em telas, pintadas pela enorme equipe distribuída pelos três ateliês. Outra extravagância do japonês são quatrocentos quadros de cogumelos de 25 centímetros. Alguém se interessa? Cogumelos... como não pensei nisso...  Cogumelo/psilocybe dá um chá alucinógeno, vai ver é isso. Os cogumelos são psicodélicos, só pode ser! 33 cores!!!!!!!!!
Quando pensar no ateliê de Murakami esqueça tudo que você viu ou imaginou até hoje como um ateliê. O dele está mais próximo de uma sala cirúrgica. Silencioso, paredes brancas, email, iChat, iPhone, iPad,drones, smartwatches e toda parafernália de softwares inteligentes, além de conferências telefônicas regulares. O único barulho é de um secador de cabelos usado para enxugar a tinta das telas. Lendo a descrição de Sarah Thornton sobre sua ida aos ateliês, e a descrição dos trabalhos, pensei em Romero Brito.  Para mim sempre foi inexplicável o sucesso do brasileiro em Miami, mas comparado ao trabalho de Murakami, Brito pode ser considerado quase um clássico!



quarta-feira, 12 de março de 2014

Adjetivos qualificativos...


     Quando uma de minhas filhas foi para Florença estudar, eu a acompanhei. No primeiro dia de aula dela o diretor da escola perguntou o que eu faria com meu tempo livre (achei que era uma cantada, o que confirmaria a fama dos italianos... mas não era). 

    Disse-lhe que andaria pela cidade sem destino, sentindo o cheiro e vendo detalhes daquelas ruas históricas... Ele respondeu enfaticamente:

     - “Perda de tempo. Venha fazer um curso aqui. Não vou cobrar nada.”


     Colocou uma folha na minha frente, eu fui preenchendo e depois de uns vinte minutos me disse que eu estava classificada para a sala 3.

     Entrei numa turma já formada: uma jovem senhora, executiva suiça, um jovenzinho alemão lindo, de família riquíssima e que estava ali aprendendo seu sexto idioma, duas mocinhas peruanas cujas mães trabalhavam na Itália como faxineiras, uma jovem de trinta e poucos anos, canadense, doutorada em arte e fotografia, uma mocinha nova-iorquina, filha de jornalistas pretendendo ser advogada com especialização em Direito Internacional e uma outra senhora, um pouco mais velha, nascida na Irlanda, criada na Austrália e na França, residente na Suiça, era chefe da segurança de um internato suiço para rapazes... sabia caratê e manejava uma arma de fogo com destreza. Essa foi a minha classe. 
     O professor, Ermano, tinha a minha idade e encontramos uma infinidade de pontos em comum, livros, filmes, opiniões políticas, ele era encantador apesar de seu metro e cinquenta.  Ao falar, principalmente quando se empolgava, parecia ter dois metros.

Um dia, ao iniciar um debate, ele sugeriu que a primeira pergunta fosse dirigida a mim. Eu perguntei, intrigada:
     - Por que eu?
     E a resposta foi: 
     - Porque você é excêntrica. 

Fiquei felicíssima. Hoje acredito que essa seja minha maior qualidade: sou excêntrica.

domingo, 9 de março de 2014

SETE DIAS NO MUNDO DA ARTE


O livro foi escrito por Sarah Thornton. A autora conta com um bom humor sensacional seu contato com a arte a partir de um leilão da Christie’s realizado todo mês de novembro em New York. Ela descreve os tipos exóticos frequentadores desse mundo tão pequeno através de um passeio de sete dias. O leilão é o primeiro dia. O segundo
ela passa ao lado de críticos de arte classificando seis diferentes papéis exercidos por essa gente estranha: artista, marchand, curador, crítico, colecionador, leiloeiro. Para Sarah Thornton esse universo partilha um princípio: nada é mais importante do que a própria arte. De acordo com a autora muita gente até acredita nisso!  Em seguida ela embarca para a Suíça onde se realiza a mais importante feira de produção artística  contemporânea do planeta se perguntando quando a bolha vai explodir. Eu me faço a mesma pergunta sempre... e nem sou entendida em arte. Leio essas coisas para agradar o Baptista, esse homem turrão decidido a fazer de mim uma intelectual. Ele precisava ter ido ao casamento da Leticia Sabatella. O padre disse algo interessante. O homem casa acreditando na mudança da mulher, porém quem se transforma é ele. Baptista não percebeu que, de sério e mal-humorado, está feliz e risonho. De sedentário passou a atleta, guardadas as devidas proporções. Falando em proporções vamos voltar ao assunto principal, arte. De certa maneira a feira e a visita ao ateliê têm algo em comum, a produção e comercialização da obra. Nesse perambular a autora descobre 1) o mundo da arte é uma aldeia; 2) feiras são menos estressantes que leilões; 3) obras comercializadas em feiras nem sempre são vendidas pelo maior preço e sim ao mais respeitável colecionador, o praticante da compra em profundidade, cujo acervo seja coerente. Viva! Fica claro para o leitor que o nome do livro refere-se à síntese de uma pesquisa maior distribuída em uma semana. O quarto dia foi dedicado ao Prêmio Turner, da Tate Britain, conjunto de três galerias e um museu. A Tate Gallery é a mais visitada do mundo seguida pelo Moma. O prêmio anual tem quatro correntes finalistas. Uma de suas observações é que as pessoas do mundo da arte falam como se fossem íntimas de todos, chamando poderosos pelo primeiro nome: Jay, Larry, Damien, etc. De volta a New York após passar pela Suiça e Grã Bretanha vai ao encontro do editor da Artforum. Poderosa eu? Trata-se da revista mais conhecida no mundinho artístico, consequentemente, Knight Landsman é tão respeitado quanto o papa.  Para a arte Artforum tem a mesma importância da Vogue para a moda. De acordo com o editor da revista – prefere o anonimato – 95% da arte contemporânea não pode ser levada a sério. Sério??? Eu ainda estou no quinto dia. Aí tem coisa... 

sábado, 8 de março de 2014

Nunca mais ver Maria



Talvezeu devesse me submeter a um rito de passagem. Desses onde se pinta a cara, ou onde se entoa hinos pelada ou coisa assim. Sim, uma marca que me garanta que estou entrando para uma nova existência. E aí chamaria Maria para me acompanhar. Ela viria descalço, assim como veio João quando o chamei. Ela estaria sorrindo e me daria as mãos calejadas me jurando que daqui para frente as viagens seriam mais alegres. Mas eu teria coisas a dizer a ela, não sei fazer viagens alegres, elas ficam sem graça. Maria me pegaria pelas mãos e me levaria ao lugar mais distante da cidade, diria que o rito de passagem faria ela mesma.

E ela me contaria de mim, das minhas coisas e das minhas dores. Maria seria abençoada com uma luz que só Maria, moradora de Cuiabá, teria. Ela me diria que o que vai rápido deveria ir mais devagar e o que vai devagar, deveria ir mais devagar ainda. Maria sábia, moça vivida, terra batida.

Falaria a ela que me falta  luz, me faltam palavras que se bastem em uma. Talvez ela me dissesse para ter calma que as palavras vão voltar assim como muita coisa voltou. Diria a ela que quero sair do meu corpo e assim fazer meu rito de passagem. E ela me ajudaria. Eu sairia e fugiria para nunca mais ver Maria.

quinta-feira, 6 de março de 2014

palavras

paixão era cega.
nascera assim, segundo os médicos.
por quê? nenhum doutor se arriscava.
mas foda-se.
não era problema.
paixão não precisava dos olhos.
apostava no seu sexto sentido.
poder de super-herói, sabe?
quando algo ruim se aproximava, a dor no joelho piorava.
joelho ruim por causa do basquete.
doía sempre.
mas quando a energia negativa se instalava, a dor era de chorar.
e, assim, dos olhos pálidos da paixão, corria uma lágrima.
uma só.
era o sinal.
“cai fora. e rápido.”
ela não pensava duas vezes. 
corria.
guiada pelos braços, que descobriam o espaço físico ao redor, e pelo coração, que protegia cada passo acelerado.
proteção mais-que-divina, sabe?
chegava em casa, trancava a porta, se escondia embaixo do edredon estampado com fitinhas do senhor do bonfim.
não, não acreditava em santos.
nem em anjos.
acreditava só no amor.
tadinha.
também tinha super-poder para o amor.
ao sentir que um grande amor se aproximava, paixão escrevia.
tirava lápis, caderneta (paixão era vintage…) da bolsa.
era incrível.
as letras ganhavam forma em sua mente. as mãos faziam o resto.
geralmente, era uma palavra.
uma vez, saiu “sereno”. em outra, “capricho”. em outra, “música”.
o barulho do arrancar-página vinha acompanhado daquele friozinho na barriga.
frio adolescente, espinhas na cara.
paixão se dirigia até a pessoa, esticava o braço.
o papel, dobrado duas vezes, era entregue.
em silêncio.
rompido apenas pela ensurdecedor desdobrar da folha.
esperava uma resposta.
qual?
nem ela sabia.
sabia que, quando fosse a resposta certa, não haveria mais lágrima.
nem corridas.
só o amor.
até hoje, nada de resposta certa.
talvez não fosse a palavra certa escrita também.
mas não faz mal.
paixão segue fugindo.
paixão segue escrevendo.
cega dos olhos.

mas vendo o amor em cada palavra.

segunda-feira, 3 de março de 2014

"O que devemos lembrar a todo instante é que, quando não nos sentimos satisfeitos, estamos, por definição, sendo desonestos."
Nilton Bonder

domingo, 2 de março de 2014

A moda

Para os sociólogos é um fenômeno cultural consistindo na mudança periódica e coercitiva de estilo. A maioria das pessoas acredita ser uma proposta para uma estação. Vejo como uma renovação no estilo pessoal de cada um. Como o Baptista decidiu fazer de mim uma mulher culta deu-me uma coleção de livros ilustrados com a história da beleza nas artes. Nossa o livro é um arraso! O que isso tem com a moda? Tudo. Quando conheci Nefertiti descobri que ela desenhava sua própria roupa. Nefertiti, a rainha do Egito... Seu nome significa “a mais Bela chegou” isso explica a preocupação com a moda? Dizem que ela era deslumbrante. E para mostrar toda essa beleza criou vestidos longos e levemente transparentes presos somente até a altura dos seios e abertos lateralmente até os pés. Quando andava o vestido abria revelando seu corpo escultural. O faraó não devia ser ciumento. Eram primos e isso deve ter provocado à doença de suas seis filhas: hidrocefalia. Trata-se da acumulação de líquido no interior da cavidade craniana causando um inchaço no crânio. Resumindo as princesas tinham as cabeças alongadas como mostram as pinturas egípcias naturalistas daquela época. Quando as meninas começaram a frequentar a corte, mamãe modista desenhou um tocado para as garotas e para ela. Muito engenhosa a imperatriz, vocês não acham? Todas as mulheres passaram a usar algo parecido e as princesas estavam salvas das fofocas da corte.

Muitas páginas depois, me deparo com uma jovem alemã em um retrato cuja descrição me pareceu hilária: o autor compara a brancura da moça com Penélope, fala do ornamento cefálico que amplia sua fronte. Aqui sou eu falando: reparem na semelhança com o tocado de Nefertiti. Mas, tem mais sobre a descrição do apaixonado: “a ridente boca cheirosa de canela e sua ornadissima fala.” Como diz a propaganda da maionese: ah, não orna... com os dias de hoje não é? Em seguida chego ao capítulo denominado de A beleza mágica entre os séculos XV e XVI. Olha o cabelo da moça, parecendo com os frisados da atualidade. O lenço na cabeça me fez lembrar os tempos de hippie, com bandanas e fios amarrando cabeleiras sujas e mal lavadas. É a lei do eterno retorno. Alguém deve estar dizendo: pirou. Que conversa mole. Não é. Comprei uma saia longa estampada. Devido ao calor cortei o forro. Ela ficou um pouquinho transparente. O detalhe é que a costura na frente só vai até o joelho. Juro que veio assim da loja. Quando eu sento a abertura sobe e deixa uma das pernas de fora. Pera aí mente suja eu não sou Nefertiti e minhas pernas são finas, mas como convencer o Baptista que foi um acidente e não proposital a compra? Ah, a moda... me deixou literalmente numa saia justa!