"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música".
Nietzsche
Será que a treinadora pediu para a Orca mudar quantos capítulos?
domingo, 28 de fevereiro de 2010
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Joana: uma mulher sagrada
Em visita ao Louvre deparei-me com uma cadeira, cujo assento parecia um vaso sanitário. Arte ou técnica? Como não estava assinada por Duchamp, optei pela técnica perguntando qual sua função. Para minha surpresa, o monitor respondeu: “habet duos testiculos et bene pendentes.” Não acredito. Por que submeter um papa a essa verificação? Começou com São Pedro? Não, o trono passou a ser usado bem depois. Como diria Caetano “inscrevo assim minhas palavras/na voz de uma mulher sagrada.” Só pode ser isso. Houve uma mulher que foi papa! Curiosa, busquei por informações.
No século IX imperavam as trevas da idade média. Frase horrorosa, hein? Em parte a afirmação é verdadeira, então fica assim. Após o reinado de Carlos Magno, que morreu em 814, deixando o sacro império romano órfão e os herdeiros em pé de guerra, os vikings e os sarracenos tentaram saquear Roma. Nada de história, os fatos descritos aqui estão relacionados a uma mulher que nasceu, exatamente, no ano da morte de Carlos Magno, Joana. Ela derramou seu leite bom na cara do Caetano e “o leite mau na cara dos caretas.” Não poderia aprender ler, nem escrever. Mulheres letradas eram consideradas aberrações, naquela época e hoje em dia também! Mas, enquanto o mestre ensinava João, ela não só aprendeu a ler as escrituras em latim, como iniciou seu estudo dos clássicos com o professor, de origem grega. A morte do irmão deu a ela a oportunidade de assumir sua identidade e ingressar em um mosteiro, destacando-se em teologia e medicina.
Como padre acabou vivendo em Roma, onde encontrou um mundo de oportunidades na Schola Anglorum. Tinha uma vida ativa, podia usufruir da pequena biblioteca, bem como entrar e sair à vontade desse local. Sua única obrigação era celebrar uma missa toda manhã. Tornou-se intelectual respeitada. Quando Leão IV assumiu o trono de São Pedro convidou João, o inglês, como era chamado, para notário na Cúria. Oito anos depois, com a morte de Leão, foi aclamado papa, numa cidade dominada por poderosas famílias romanas justamente por não estar ligado a nenhum grupo político, talvez até por ser estrangeiro. Era o ano santo de 853. Ela governou a cristandade por dois anos com o nome de João VIII, antes de Bento III. Teve um reinado discreto, com muitas obras, mas sem aparições públicas. Porém, acontecimentos desastrosos começaram a afligir a população e como pontífice: a ponte entre a humanidade e Deus, precisava intervir. Os cardeais e colaboradores mais próximos do papa programaram uma procissão. Paramentada e de baixo de um sol escaldante, ela sentiu-se mal. Ao prestarem socorro a João perceberam que o papa não só era uma mulher como estava grávida. A noticia se espalhou e Joana foi linchada pelos fiéis como culpada pelos desastres abatidos sobre a cidade. O mistério da gravidez nunca foi desvendado, mas numa cidade devassa como Roma, qualquer um que conhecesse a real condição de Joana poderia ter feito chantagem e conseguido usufruir da situação. Nisso tudo um acontecimento é verdadeiro: a partir de um dado momento, o Vaticano passou a submeter o eleito ao ritual de certificação de seu sexo usando a tal cadeira. Incrível, não é? Acho que Caetano pensou nela quando escreveu os versos “Vaca profana, põe teus cornos/para fora e acima da manada/dona das divinas tetas/derrama o leite bom na minha cara/e o leite mau na cara dos caretas.” Amém!
No século IX imperavam as trevas da idade média. Frase horrorosa, hein? Em parte a afirmação é verdadeira, então fica assim. Após o reinado de Carlos Magno, que morreu em 814, deixando o sacro império romano órfão e os herdeiros em pé de guerra, os vikings e os sarracenos tentaram saquear Roma. Nada de história, os fatos descritos aqui estão relacionados a uma mulher que nasceu, exatamente, no ano da morte de Carlos Magno, Joana. Ela derramou seu leite bom na cara do Caetano e “o leite mau na cara dos caretas.” Não poderia aprender ler, nem escrever. Mulheres letradas eram consideradas aberrações, naquela época e hoje em dia também! Mas, enquanto o mestre ensinava João, ela não só aprendeu a ler as escrituras em latim, como iniciou seu estudo dos clássicos com o professor, de origem grega. A morte do irmão deu a ela a oportunidade de assumir sua identidade e ingressar em um mosteiro, destacando-se em teologia e medicina.
Como padre acabou vivendo em Roma, onde encontrou um mundo de oportunidades na Schola Anglorum. Tinha uma vida ativa, podia usufruir da pequena biblioteca, bem como entrar e sair à vontade desse local. Sua única obrigação era celebrar uma missa toda manhã. Tornou-se intelectual respeitada. Quando Leão IV assumiu o trono de São Pedro convidou João, o inglês, como era chamado, para notário na Cúria. Oito anos depois, com a morte de Leão, foi aclamado papa, numa cidade dominada por poderosas famílias romanas justamente por não estar ligado a nenhum grupo político, talvez até por ser estrangeiro. Era o ano santo de 853. Ela governou a cristandade por dois anos com o nome de João VIII, antes de Bento III. Teve um reinado discreto, com muitas obras, mas sem aparições públicas. Porém, acontecimentos desastrosos começaram a afligir a população e como pontífice: a ponte entre a humanidade e Deus, precisava intervir. Os cardeais e colaboradores mais próximos do papa programaram uma procissão. Paramentada e de baixo de um sol escaldante, ela sentiu-se mal. Ao prestarem socorro a João perceberam que o papa não só era uma mulher como estava grávida. A noticia se espalhou e Joana foi linchada pelos fiéis como culpada pelos desastres abatidos sobre a cidade. O mistério da gravidez nunca foi desvendado, mas numa cidade devassa como Roma, qualquer um que conhecesse a real condição de Joana poderia ter feito chantagem e conseguido usufruir da situação. Nisso tudo um acontecimento é verdadeiro: a partir de um dado momento, o Vaticano passou a submeter o eleito ao ritual de certificação de seu sexo usando a tal cadeira. Incrível, não é? Acho que Caetano pensou nela quando escreveu os versos “Vaca profana, põe teus cornos/para fora e acima da manada/dona das divinas tetas/derrama o leite bom na minha cara/e o leite mau na cara dos caretas.” Amém!
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
sentimento
andava distraída, sob o calor moderado da estação, apenas para matar o tempo.
saiu de casa sem rumo, sem horizonte, sem destino.
apenas andar. um passo após o outro, o outro após o um.
mp3 em volume 30, fiona apple in concert.
mas não demorou para encontrar, na esquina da padaria, um sentimento perdido.
estava sujo. fedido. infestado de pulgas.
ela ficou com dó. pegou o bichinho no colo, correu pra casa.
deu banho.
deu carinho.
deu ração.
deu carinho.
deu vacinas.
deu carinho.
em pouco tempo, eram inseparáveis.
saíam pra passear juntos. dormiam juntos. assistiam aos filmes do tim burton juntos.
o sentimento cresceu. engordou. entrou no cio.
era um rapaizinho já.
um dia, o carteiro deixou o portão aberto.
sentimento não resistiu. fugiu.
dobrou a esquina.
correu feito um maluco atrás de um carro.
e se perdeu.
e não voltou.
ela chorou.
procurou na padaria.
chorou.
procurou na carrocinha.
chorou.
todos os dias, ao acordar, afastava a cortina à medida de meio rosto.
ainda sem óculos, procurava por ele no portão da casa.
nada.
sentimento tinha voltado às ruas.
podia estar lá, sujo, fedido, pulguento novamente.
ou simplesmente esperando uma nova moça, sem destino, passar por ele.
saiu de casa sem rumo, sem horizonte, sem destino.
apenas andar. um passo após o outro, o outro após o um.
mp3 em volume 30, fiona apple in concert.
mas não demorou para encontrar, na esquina da padaria, um sentimento perdido.
estava sujo. fedido. infestado de pulgas.
ela ficou com dó. pegou o bichinho no colo, correu pra casa.
deu banho.
deu carinho.
deu ração.
deu carinho.
deu vacinas.
deu carinho.
em pouco tempo, eram inseparáveis.
saíam pra passear juntos. dormiam juntos. assistiam aos filmes do tim burton juntos.
o sentimento cresceu. engordou. entrou no cio.
era um rapaizinho já.
um dia, o carteiro deixou o portão aberto.
sentimento não resistiu. fugiu.
dobrou a esquina.
correu feito um maluco atrás de um carro.
e se perdeu.
e não voltou.
ela chorou.
procurou na padaria.
chorou.
procurou na carrocinha.
chorou.
todos os dias, ao acordar, afastava a cortina à medida de meio rosto.
ainda sem óculos, procurava por ele no portão da casa.
nada.
sentimento tinha voltado às ruas.
podia estar lá, sujo, fedido, pulguento novamente.
ou simplesmente esperando uma nova moça, sem destino, passar por ele.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
CONTOS DE SOLIDÃO E DIA INTERNACIONAL DA MULHER
Diante da falta de comentários, mudei o rumo.
Desisti de falar sobre a Índia.
Desisti de falar sobre a Índia.
Embora a Janaína diga que ninguém merece um blog tipo “meu querido diário”, hoje não dá para escapar.
Dia 4 de março será o lançamento de meu livro, às 20 horas no Luna Bar, aqui em Bauru.
É o primeiro solo, só havia publicado antes em antologias.
A Canal 6 Editora fez um trabalho muito bom. Estou feliz com o resultado. Gostei da capa, da editoração e, claro, dos meus contos. Histórias descomplicadas que vagueiam pelo universo de pessoas como a gente com altos e baixos, alegrias e tristezas, trabalho e ócio. Elas têm um eixo comum: a solidão. Daí o nome do livro: Contos de Solidão.
Se puderem apareçam.
Dia Internacional da Mulher.
Há muito para comemorar, afinal não se pode ignorar tantas conquistas e reconhecer que a mulher de nossos dias tem uma condição totalmente diferente da nossas mães e avós... mas ainda falta tanto para soltar rojões!
Enquanto houver meninas (e meninos) violentados dentro da própria casa por víboras que se intitulam pais, irmãos e padrastos, enquanto as mulheres concordarem em ser manipuladas pela mídia, enquanto as mulheres se deixarem submeter à tirania da moda com seus vestidos provocantes e tantas vezes ridículos, enquanto as mulheres aceitarem que precisam ter um corpo perfeito para serem bonitas, enfim, enquanto tanta coisa pertencer ao campo da futilidade, ainda não é hora de acender os holofotes e dizer
Feliz Dia Internacional da Mulher!
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Alice
Alice no país das maravilhas de Tim Burton já era um filme rock and roll antes mesmo de ser. Burton queria Fances Bean como Alice. Ela se negou. Frances Bean, a filha única de Kurt Cobain e Courtney Love. O filme já era rock and roll antes de ser. Frances fez a campanha da Chanel ao invés, afinal, cada um sabe o que faz.
Johnny Depp, o melhor e mais original ator de sua geração, não se negou. E por que Depp se negaria? Ele nasceu para ser o Chapeleiro Maluco mesmo para uma Alice não Francis Bean.
E o filme está pronto.
E a trilha passeia feliz pela internet. D'us salve a internet. E mesmo sem Francis Bean a trilha é rock and roll. E tem Bob Smith, sóbrio, sombrio, doce e sedutor. E mal posso esperar por Alice...
Johnny Depp, o melhor e mais original ator de sua geração, não se negou. E por que Depp se negaria? Ele nasceu para ser o Chapeleiro Maluco mesmo para uma Alice não Francis Bean.
E o filme está pronto.
E a trilha passeia feliz pela internet. D'us salve a internet. E mesmo sem Francis Bean a trilha é rock and roll. E tem Bob Smith, sóbrio, sombrio, doce e sedutor. E mal posso esperar por Alice...
sábado, 20 de fevereiro de 2010
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
4h13
um pesadelo.
ela bate friamente na porta. três socos.
ele atende. sorri ao vê-la depois de tanto tempo.
ela entra. lábios fechados, como ele nunca vira.
preferia a boca semi-aberta, pedindo outros lábios, tentando murmurar algo que a timidez insistia em sufocar.
mas não hoje.
ela se vira.
mantém distância.
suspira.
e pede: 'me esqueça'.
se despede, deixando apenas um rastro do perfume que ele adora.
ele, imóvel, tenta entender.
tenta pensar em uma maneira de esquecê-la.
de não desejá-la.
de expulsar da memória o primeiro beijo, os corpos juntos, o tesão guardado a sete chaves.
acorda.
no relógio, 4h13.
um pesadelo.
olha pro lado da cama... nada.
ninguém.
abre a janela e vê uma madrugada fria, chuvosa, solitária do lado de lá da janela.
pesadelo.
melhor aquele que teve enquanto dormia.
ao menos, ela ainda estava lá.
ela bate friamente na porta. três socos.
ele atende. sorri ao vê-la depois de tanto tempo.
ela entra. lábios fechados, como ele nunca vira.
preferia a boca semi-aberta, pedindo outros lábios, tentando murmurar algo que a timidez insistia em sufocar.
mas não hoje.
ela se vira.
mantém distância.
suspira.
e pede: 'me esqueça'.
se despede, deixando apenas um rastro do perfume que ele adora.
ele, imóvel, tenta entender.
tenta pensar em uma maneira de esquecê-la.
de não desejá-la.
de expulsar da memória o primeiro beijo, os corpos juntos, o tesão guardado a sete chaves.
acorda.
no relógio, 4h13.
um pesadelo.
olha pro lado da cama... nada.
ninguém.
abre a janela e vê uma madrugada fria, chuvosa, solitária do lado de lá da janela.
pesadelo.
melhor aquele que teve enquanto dormia.
ao menos, ela ainda estava lá.
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