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terça-feira, 8 de novembro de 2011

Alan Pauls, na Folha: "Condição adolescente de ser uma eterna promessa envolve cineasta Sofia Coppola e sua obra"



Sofia Coppola está prestes a completar 40 anos, mas continuamos tratando-a como adolescente. Como se seus filmes -e ela já fez quatro- não fossem frutos de seu talento, sua sensibilidade ou sua inteligência, mas promessas de uma obra futura em que se revelará a verdade por inteiro. 

Por quê? Pelo carma de ser filha de Francis Ford Coppola? Ou porque continuamos a enxergá-la como a muito jovem Mary Corleone de O Poderoso Chefão - Parte 3?

Nessa estranha ilusão óptica que geram os filmes de Coppola, há algo que não se deixa explicar pelos avatares biográficos da diretora nem pela poluição midiática que contamina sua estirpe. Algo que está relacionado aos próprios filmes. Como se esse erro de paralaxe fosse um dos elementos internos decisivos, inclusive o segredo que os faz existir e os define.

Já se disse muito que o tema do cinema de Coppola é a celebridade. As irmãs Lisbon, de As Virgens Suicidas (1999), são estrelas da disfuncionalidade familiar, assim como Maria Antonieta (2006) o é no mercado da mundanidade monárquica.

Nem há o que dizer sobre Bob Harris, de Encontros e Desencontros (2003), inspirado nessa "bête noire" do "star system" de Hollywood que foi Orson Welles.

IMPASSIBILIDADE

O protagonista de Um Lugar Qualquer também é um desses seres marcados pela hipervisibilidade. Ator de Hollywood, Johnny Marco é apático como Harris, inocente como Maria Antonieta e autoabsorto como as meninas Lisbon.

Coppola descreve a vida de Marco com a mesma impassibilidade, a mesma falta de ênfase e hierarquias dramáticas com que filmou a via crucis de Bob Harris pelo labirinto ilegível de Tóquio.

Tudo indica que Johnny Marco é famoso, mas o que Sofia Coppola omite é o porquê. Marco não é especialmente bonito, simpático ou brilhante. Ignoramos tudo sobre sua carreira e sua habilidade como ator.

A única coisa que nos é mostrada é um cartaz de seu último filme e uma entrevista coletiva que Marco resolve com monossílabos. Mas ele tampouco é especialmente idiota, extravagante ou rebelde. Digamos de uma vez: Johnny Marco não é nada.

Como pode, portanto, ser uma celebridade? Aqui está a descoberta mais sutil, mais "warholiana" de Um Lugar Qualquer: a ideia de que a fama, em sua versão contemporânea, é um enigma.

Não é o resultado lógico e progressivo de um trabalho, uma carreira, um conjunto de qualidades pessoais, mas uma mais-valia mágica, invisível, que nunca procede daquele que a ostenta, mas do exterior, dos outros, daqueles outros em que Sartre costumava localizar o inferno.

Assim, Marco é apenas o herói menor, subsidiário, do filme de Coppola. Os verdadeiros heróis são outros: camareiros, assessores de imprensa, comissários de bordo, strippers, toda essa pequena legião de artistas conceituais camuflados que fazem desse nada que é Johnny Marco uma celebridade.

Desse nada, ou desse adolescente eterno que ele é, porque o que é a adolescência senão esse grande momento no qual -para o bem ou para o mal- somos o que os outros decidem?

Não é, portanto, o tema da celebridade o que distingue o cinema de Sofia Coppola. É sua hipótese -corroborada por ela mesma, congelada na condição adolescente de ser uma promessa eterna- de que celebridade e adolescência são experiências gêmeas e que, para ser célebre, não é preciso ser ou fazer nada: só deixar-se fazer pelos outros. 

ALAN PAULS, escritor argentino, é autor de "O Passado" (Cosac Naify), entre outros. Tradução de CLARA ALLAIN. 


domingo, 6 de novembro de 2011

Em fatos verídicos

Ler biografias nem sempre geram bom resultados. Sou amante da obra de Jane Austen e qualquer pessoa que me conheça sabe disso. Li todos os livros, vi boa parte das adaptações para o cinema e finalmente, em minha última viagem, comprei empolgadíssima duas biografias da autora. Estou na página 176 de 347 da primeira delas e relutando cada vez mais em virar a página. Algo me diz que não lerei a segunda. E por quê? Porque incrivelmente, ou não, a imagem e fantasias que tinha relacionados a Jane, criados e nutridos a revirar de páginas sobre Lizzy e Darcy, não condizem muito com a realidade da vida da autora. E para piorar em dado momento assisti Amor e inocência (Becoming Jane), que se vende como retrato de um momento na vida de Jane e vamos combinar que não condiz com o que tenho lido na última semana. Só para exemplificar, o filme trata de seu avassalador romance com o jovem irlandês Tom Lefroy, que nos meus sonhos foi o Mr Dancy de Jane, e no livro não é nada disso. Sim, a jovem então aspirante a escritora conhece Tom Lefroy em 1795, algo por volta da página 114 e ao todo encontra o rapaz umas três vezes em eventos sociais e nunca mais volta a vê-lo já na página 121. E o encontro na floresta? A fuga para o casamento? O amor infinito e imortal? A filha com outra nomeada a partir de sua amada? Nada disso foi verdade? A passagem de Tom Lefroy na vida de Jane Austen se resume a sete páginas e algumas poucas cartas trocadas com a irmã Cassandra. Somente. Basicamente o livro tem acabado com todo e qualquer sonho romântico dessa que vos escreve, mas ouso dizer que isso tudo vem a calhar e de certa forma cabe bem na minha situação atual. Outro dia estava com duas amigas queridas em um barzinho quando meu celular anunciou a chegada de um torpedo. Dizia algo assim: "Amor, estou morrendo de saudade". Li e apaguei. Minhas amigas, curiossissimas, queriam saber quem era. Era engano, é claro, afinal não tenho ninguém na vida nesse momento que me mandasse um torpedo desse teor. Triste? Admito que sim. Então ler que na verdade Jane Austen não viveu um grande amor, não teve um encontro incrível na floresta e nunca encontrou seu Darcy mas mesmo assim criou um para sua Lizzy, me faz ver que a vida é assim mesmo. E que os roteiristas americanos tem muita (mas muita) imaginação.