segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Odô iyá

Nasci Iemanjá.
Nasci também filha de Iansã, Oxum e, é claro, Iemanjá.
Cresci entre escadas, livros e gatos. Mocinha fui para o asfalto, viver entre prédios e fumaça. Entre rios poluídos.
Não sei desenhar, mal cozinho, troco palavras e me confundo com nomes, pronomes, verbos e adjetivos. Mas sei nadar e até ando de bicicleta.
Não tenho medo de bicho algum. Só de barata, mas barata é inseto e não conta.
Nunca fui boa aluna. Sou absolutamente incapaz de guardar nomes. Datas então, nem se fale. Tenho uma capacidade incrível para reter na mente tudo o que há de inútil e desnecessário. Nunca me peça para fazer contas ou ser objetiva.
Ontem joguei do meu armário algo como 12 kg de papel, contas de 2006, recibos, lembranças de uma outra vida.

domingo, 22 de dezembro de 2013

O admirável mundo novo!

A crise atual e seu corolário, o desemprego permanente, dizem os políticos é passageira. Alguém está enganando alguém. O trabalho está em vias de desaparecer e se Obama ou Dilma fingem não saber, garanto ter conhecido pelo menos uma pessoa que dizia isso com categoria. Na década de 1980, quando eu estudava na França, estava sob a orientação do sociólogo Jofre Dumazedier, um comunista desiludido trabalhando com lazer. No final do século XX o mundo teria mais de 40% de desempregados, afirmava. Ao mesmo tempo descrevia as transformações na nova civilização, pois a anterior, fundamentada na estabilidade do cargo como garantia de segurança, estava desaparecendo. Previa um mundo comandado por economistas, “o jugo da economia,” brincava. Um verdadeiro profeta! Pela primeira vez na história, a maioria dos seres humanos é dispensável para o reduzido número dos que gerenciam a economia mundial. Essa verdade não está escondida, porém os políticos não falam dela com clareza. A economia lança-se cada vez mais à especulação pura. Prestem atenção nas atuais transações dos governos, seja na Europa, seja na América. Refiro-me a uma forma corrente de troca negociando algo inexistente como o G-20 e seus trilhões. Transações não com ativos reais, mas onde se transferem dívidas, que por sua vez são negociadas, revendidas e recompradas infinitamente, na maioria das vezes sobre valores virtuais. Loucura? Sim, trata-se de um mercado ilusório, fundamentado nos simulacros. Um homem apostando como em um cassino, pode efetuar esse tipo de transação, apenas com um computador e um fax, confirmando a declaração de Helmut Schmidt à televisão alemã: “nesses mercados surrealistas são feitos cem vezes mais negócios do que nos demais.” Esse comércio virtual conduziu a economia a um beco sem saída e foi incapaz de gerar verdadeiros empregos. Não sei quanto dinheiro Obama entregou às montadoras na vã esperança de segurar uma ocupação para os funcionários, porém eles continuam sendo dispensando. Não tenho resposta para a questão, embora nunca tenha separado o fazer cultural do social. A meu ver toda atividade é política, mesmo quando não pretende ser. Shakespeare ficaria fascinado pelos lances trágicos dessa economia e por suas implicações, pois são elas que dissimuladamente estão transformando o destino dos habitantes desse planeta.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

NASCIMENTOS E INCOMPRENSÃO



O governador de província de São Paulo, Morgado de Matheus, em 1769, designou o sargento-mor Theotônio José Juzarte, para conduzir uma expedição  até  atingir Iguatemi, em Goiás, onde existia o Forte e Presídio de Nossa Senhora dos Prazeres.  Ali tinha por missão substituir  a guarda desse forte e alojar naquela  região, povoadores com o propósito de consolidar a presença brasileira naquela área, que vivia em turbulência com vizinhos sul-americanos. Theotônio se incumbiu por recomendação do Morgado, de elaborar um diário que serviria de informações para futuros navegantes àquela região, quando usassem os rios Tietê, Paraná e Iguatemi.
Partiram de Araritaguaba (atual Porto Feliz), às margens do Rio Tietê. O visconde de Taunay no livro “Diário de Navegação”, elaborado pela Unicamp informou que  “a 13 de abril desse ano, ... é que partiu de
Porto Feliz a grande monção, com trinta e seis grandes embarcações em que se aboletavam quase oitocentas pessoas, das quais setecentas e tantas ‘povoadoras’ com homens, mulheres, rapazes e crianças de todas as idades, trinta soldados de linha, gente de mareação e equipagem”.
No dia 20 de abril, registra o diário: “... depois passamos por uma cachoeira chamada Putunduva que quer dizer em Português onde a vista se faz escura, é muito perigosa, e medonha esta cachoeira, se metem as embarcações por ela com gente dentro a Deus e à ventura, daí, mais abaixo passamos pela cachoeira de Ibauru-guassu (g.n.) e foi preciso saltar gente em terra, aliviar as embarcações de alguma carga para poderem passar por cima das Pedras, e a gente, e carga abrindo-se picada pelo mato para ir sair abaixo da dita cachoeira, sofrendo muito trabalho e incômodo, carregando-se doentes sofrendo-se muitas mordidelas de mosquitos, e Bernes na passagem pelo mato: embarcamos outra vez, e daí mais abaixo passamos a cachoeira de Ibauru-mirim (g.n.), esta se passou pela sua madre indo tudo embarcado, e daí fomos seguindo viagem...” Na língua tupi-guarani Ibauru significa águas tortuosas, correnteza. Nas imediações dessas cachoeiras desaguava o Rio Bauru, sugerindo que ela emprestou seu nome para o rio e este para o  Município criado em 1896.
No primeiro dia, depois de muito navegar, surgiu a primeira cachoeira, Abaramanduaba; depois outra, Piraporá. Vencidas no final da tarde, embicadas as canoas nas margens do rio, abriu-se uma clareira para alojar o pessoal, lugar comum a se repetir  nas noites seguintes: matança de jacarés e cobras corais, ladainhas entoadas à Nossa Senhora e rezas ao santo protetor. Dourados e pintados apressados e comidos, veados pardos abatidos para servir nas refeições.
Cachoeiras, correntezas e saltos seriam vencidos nos dias seguintes. Haveria transporte de carga por terra, para que as canoas pudessem sobrepujá-los... um cenário redundante numa longa jornada desenrolada no século 18. No trajeto, contato com carrapatos que feriam a pele dos viajantes, doenças grassando, alguns perecendo no percurso.
E a viagem, com todas as dificuldades que a época ensejava, prosseguiu e   chegou às barras dos rios Capivari e Sorocaba, remos avançando no rio indomável e ficaram para trás o ribeirão Icoacatu e a barra do rio Piracicaba.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

fecha

abre os olhos.
deve ter sido o barulho da sirene.
diferente: um som suave, distante, improvável.
a noite imensa presa em seu quarto pesa sobre o rosto.
pensa em se virar. não consegue.
deve ser a preguiça da madrugada.
ou o vinho da noite.
vinho…
nota mental: evitar em noites tristes.
a cama parece mais áspera que antes.
ou seriam os pecados que castigam nas costas?
afinal, rasgam a pele feito chibatadas.
e não tem colchão de molas que dê jeito.
a consciência pesa.
em proporção matemática, o incômodo aumenta.
assim como o barulho da sirene.
olha, vai ser uma noite daquelas.
tenta lembrar o porquê, o onde, o quando.
mas está tudo embaralhado.
fios entrelaçados com boas lembranças, marcas de dores, sorrisos valentes.
deve ser restinho de sonho.
talvez um sonho bom…
vai saber?
pena que não lembra.
tomara que teve beijo na boca, sexo sujo, essas coisas…
até o pescoço dói. 
faz um esforço para virar pro lado e ver as horas.
não deve ser tão tarde assim…
nem lembra de ter ido para a cama.
maldito vinho…
a sirene já virou trilha sonora da noite.
e quando o pescoço termina o movimento, ele vê.
e não entende.
na calçada, pessoas paralisadas.
as mãos às bocas, os olhares, incrédulos.
não, não há lágrimas.
o silêncio ensurdece tanto que as bocas falam, mas ele não ouve.
filme dublado. idioma: terror.
só ouve a sirene.
sente algo escorrer pela barba.
mas a mão não obedece o braço, que não obedece o cérebro.
não consegue se mexer.
a dor aumenta.
mais pecados reclamando a consciência?
sonho bom que não é.
o que escorre pela barba invade a boca.
reconhece o gosto sofisticado do sangue.
dá até saudade do vinho.
a sirene berra.
e chega acompanhada de luzes, que invadem o escuro do quarto.
não entende. 
mas consegue imaginar.
sempre foi bom para pensar em histórias.
desde pequeno.
orgulho da professora de português.
pensa.
não está no quarto. não está deitado na cama. não tem preguiça.
pensa demais. 
queria não ter imaginado.
arrependimento é pecado?
se for, mais uma chicotada nas costas, por favor.
fecha os olhos para abri-los novamente.
quem sabe ainda é o sonho.
quem sabe?
fecha os olhos.
abre os olhos.

fecha os olhos.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

     Alan querido, joguei minha postagem para a noite a fim de dar a todos a oportunidade de ler seu texto e sentir pena/inveja de você.
     Tadinho... trabalhando tanto! Inveja: ele terá férias... e irá para a casa dos pais!!! Delícia maior não existe.
      Sempre amei a casa dos meus pais. Brigava muito com meu pai mas sentia uma admiração enorme por ele, pela seriedade com que fazia tudo e pela vida corretíssima que levou. Morreu com a idade que tenho hoje. Na época eu considerei uma boa idade para morrer. Hoje acho que foi muito cedo.
     Minha mãe tornou-se independente, mal chegara aos cinquenta, aprendeu a fazer tudo o que era necessário, desde pequenos investimentos no Banco, compreendendo a diferença entre médio, longo e curto prazo e essas coisas todas, até levar o carro para revisão, contratar pedreiros e assumir as responsabilidades que nunca tivera. Hoje não tenho mais a casa dos meus pais para ir... e sou a casa dos pais, é para cá que todos vêm, inclusive primos desgarrados. Viu o que você fez? Com uma frase só desencadeou memórias infinitas.
     Por ser a mãe, hoje fiz biscoitos para o Natal. Já percebi que não durarão. Ficaram deliciosos. Colocados num pote lindo, estão atraentes e ninguém resiste. O desfalque está mais ou menos em 50%. Amanhã farei mais.
     E como não é só o Natal que está chegando mas o final do ano, aqui vai  meu texto predileto sobre este tempo de contagem regressiva:
Cortar o tempo

Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número
e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente
                                                                     Carlos Drummond de Andrade

Feliz Natal!
    
    
    

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Pílulas 3

Vamos lá...

como eu ainda não dormi, ainda é terça-feira. Desculpe-me por estar invadindo o espaço de você, Leda, que escreve às quartas-feiras. Gente, mas é uma mensagem de pedido de desculpa. Não haverá nada muito relevante e longo, pois estou em uma semaninha daquelas. Última semana antes das férias na USP, com entregas de trabalhos, com a difícil decisão de desencanar de uma disciplina, que foi mal dada pelo professor - culpa da greve também... Enfim, a verdade é que eu não vejo a hora de chegar o dia 20, quando viajarei para a casa dos meus pais e estarei na praia...

sem mais!
até a semana que vem!

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Das nuvens


“Our lives are not our own. 
We are bound to others, past and present, 
and by each crime and every kindness, 
we birth our future.” 
David Mitchell

"Atlas das nuvens" de David Mitchell foi publicado em 2004 e é um livrão. Literalmente. 500 e poucas paginas na cópia que tenho em casa. Dessas publicações que dá para usar como arma no metro. E é um livrão no sentido figurado. Lindo. Emocionante. Desses que a gente lê e fica triste quando acaba e já quer recomeçar.
Dividido em histórias, cada uma a seu tempo e com seu conjunto de personagens, que de certa forma se comunicam e entrecruzam formando um todo único.
O primeiro núcleo chamado "The pacific journal of Adam Ewing" se passa em 1849 no Pacífico Sul e narra as desventuras de Adam Ewing. 
 O segundo "Letters from Zedelghem", em 1936, é focado na vida do compositor Robert Frobisher, seu amor proibido por Rufus Sixsmithe, e pela música, obviamente. Frobisher lê o diário de Ewing enquanto compõem sua obra prima, uma sinfonia chamada The Cloud Atlas Sextet.   
"Half lives: the first Luisa Rey mystery" acontece na San Francisco de 1973, quando a jornalista Luisa Rey conhece o cientista Sixsmithe que a coloca a par de perigos ligados ao uso da energia nuclear. 
"The ghastly ordeal of Timothy Cavendish" se passa na Inglaterra de 2012, quando o editor Cavendish se vê as voltas com confusões financeiras, familiares e amorosas. 
"An orison of sonmi-451", se passa em 2144 em um lugar chamado Neo Soul, um mundo dividido entre seres humanos e réplicas sendo uma delas Sonmi-451.
E o sexto, "Sloosha`s crossing an` ev`rythin` after" que se passa eu um mundo pós apocalíptico, em 2321, após um acidente nuclear, quando comunidades sobreviventes se degladiam em busca do mínimo e rezam através das palavras de Sonmi. 

O livro virou filme e o filme “A viagem” foi trucidado pela crítica.
Eu amei o filme e comprei o livro. Amei o livro e revi o filme.
O longa é dirigido por Tim Tykwer e pelos irmãos Lana e Andy Wachowski.
Lana, que era Larry, e passou por uma operação para mudança de sexo e este foi seu primeiro trabalho pós resignificação. E as críticas se referiam mais a este fato do que ao filme em si.
Eu, pessoalmente, gosto das soluções encontradas pelos diretores para resolver as 500 e poucas paginas sem perder a poesia. O livro conta historias sobre gente que ajuda gente e gente que atrapalha gente e mostra como mesmo com o passar de décadas, as histórias calcadas em caráter e humanidade, se repetem. E fala também de sonhos e rebeldia e de como os sonhos são a matéria de mudança e evolução do mundo...
Vale a viagem.