quinta-feira, 17 de setembro de 2009

horas

no relógio, eram exatas duas horas, vinte e três minutos, trinta e sete segundos...
trinta e oito...
trinta e nove...
quarenta...
ela não conseguia dormir. como fechar os olhos a algo tão belo que estava para chegar?
não se permitia perder nenhum momento das emoções preliminares... tudo pela explosão sentimental já anunciada, a promessa de um abalo sísmico de bem-querer, um motivo para a vida valer a pena.
cinqüenta e sete...
cinqüenta e oito...
cinqüenta e nove...
bem, iria enlouquecer assim. precisava deixar o tempo passar, esquecê-lo feito uma lembrança amarga da infância. não sabia como – mas tinha até às 6h30 para descobrir.
tentou se acalmar. percebeu que, mais uma vez, estava com aquele tique insuportável de bater os pés a todo instante, impaciente, chorona, mimada. se viva, a mãe lhe passaria um sermão, daqueles isso não é coisa de menina, blábláblá.
um sorriso ganha o rosto. inacreditável que, quando se sabe que algo bom irá acontecer no futuro (mesmo aquele próximo, a apenas horas de distância), tudo parece ficar mais cor-de-rosa e algodão doce.
pensou em desenhar – sim, desenhava muito bem. na verdade, descobriu na faculdade que já era uma artista abstrata, com influências pós-modernistas, desde os cinco anos, quando misturou as cores da aquarela e pintou o que sua limitada tia do maternal chamou de “quadro”. bonito, né? é um quadro, né? olha, ela pintou um quadro, um lindo quadro...
quadro o caralho, tia! é uma porra de desenho abstrato!!!
a gargalhada vem fácil, e demora para ir embora... e pensar que deixou de comer cachorro-quente aquela noite por causa disso.
sentiu fome. colocou um agasalho velho, a calça surrada da semana, desceu as escadas, caminhou adentro de uma noite morna, de brisa provocante, para a barraquinha da avenida, que sempre espera os estudantes das baladas.
um cachorro-quente... há quanto tempo! como assim, uma ou duas salsichas? põe umas trinta, porra! divertia-se com os próprios pensamentos – e pensar que já teve medo deles um dia.
um, não... vários. quantas vezes deixou de se amar, quantas vezes tudo ficou escuro, quantas vezes olharam para ela na rua, apontado-a como uma aberração da natureza, só por não entender por que uma pessoa solitária, sem pais, sem amigos, sem namorado e sem seu peixinho dourado deveria viver en um mundo de sorrisos e corações previamente aquecidos por uma lenha feita de paixão vermelha e robusta?
muitas... muitas vezes.
com certeza, foram mais vezes do que podem 24 horas suportar.
horas...
caralho!
dia querendo clarear! cadê o maldito relógio? será que são 6h30... não!
corre, corre, corre... sobe escadas, sobe escadas, sobe escadas... abre porta, fecha porta...
espia na cozinha, o relógio marca digitalmente seis horas, 29 minutos, cinqüenta e cinco segundos.
aos cinqüenta e seis, a ansiedade aumenta...
aos cinqüenta e sete, o coração aperta...
aos cinqüenta e oito, não ouve, não vê mais nada...
aos cinqüenta e nove, fica paralisada.
6h30. acontece.
lentamente, entra no quarto, passa debaixo do lençol fresquinho, misto de cheiro de amaciante e perfume, e vai até ele. Um beijo na testa o faz acordar.
- 6h30, amor.
ele responde com um sorriso, os olhos semi-cerrados e um bocejo (alguém já reparou como um bocejo pode ser lindo?). senta na cama, coça a cabeça e se levanta. vai até o lado dela da cama, devolve o beijo – que, quando toca a testa, parece ser a senha para que todo aquele sentimento fervente feito lava (e adormecido durante os cincos segundos regressivos) aqueça o corpo, acomode o coração, leve a alma ao orgasmo (talvez múltiplos, por que não?).
ele segue para o banho.
ela encosta a cabeça no travesseiro, sorri mais uma vez, e dorme.
valeu cada segundo.

2 comentários:

Janaina Fainer disse...

ótimo texto
e q bom q está de volta
bjsssssssssssss

Anônimo disse...

Que lindo, Thi!!! Adorei o seu texto!!!

Beijão,

Ale